segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Titulo: TEORIA E MÉTODO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES: CONTRIBUIÇÕES SOBRE O MÉTODO “MATERIALISTA HISTÓRICO DIALÉTICO”



Maria Teresa Cavalcanti de Oliveira[1]
Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica, PUC-Rio, RJ
Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense - FEBF / Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ / Brasil
email: teresacavalcanti@gmail.com

Resumo
O presente trabalho tem como objeto de estudo explicitar as possibilidades de potencialização da construção do conhecimento científico através do uso do método marxista “materialismo histórico dialético”. Em se tratando da atual conjuntura de sociedade, marcada pela hegemonia do ideário capitalista      que convive com a batalha ideológica materializada na co-existência de projetos díspares, que entendem de maneira diferenciada o sentido da produção da existência e da vida humana, entendemos ter elevada relevância a presença do método materialismo histórico dialético na formação dos cientistas sociais e fundamentalmente na formação dos professores entendidos como intelectuais orgânicos na difusão efetiva das possibilidades contra-hegemônicas.  
Introduzindo o tema
No posfácio da 2° edição de sua obra mais conhecida - O Capital, Crítica à Economia Política - Marx faz um registro através do qual destaca, a partir de diversas críticas feitas ao seu trabalho, o não entendimento do método por ele desenvolvido e praticado nessa obra
O método empregado nesta obra, conforme demonstram as interpretações contraditórias, não foi bem compreendido. Assim, a Revue Positiviste de Paris increpa-me que trato a economia metafisicamente e, ao mesmo tempo - adivinhem, - que me limito a análise crítica de uma situação dada, ao invés de prescrever fórmulas (comtistas?) de utilidade para o futuro. Prof. Sieber contraria os que me argúem de metafísico, ao observar: “do ponto de vista da teoria propriamente dita, o método utilizado por Marx é o dedutivo de toda escola inglesa e os defeitos e as virtudes dessa escola são comuns aos melhores economistas teóricos”. (Marx, 1994;p.13)

Datada de Janeiro de 1873, a constatação formulada por Marx, da não compreensão de seu método, mantém, nos dias de hoje, por diferentes motivos, significativa atualidade. Em pleno século XXI, tanto tempo após a concepção da teoria do materialismo histórico e a despeito do efetivo e inegável impacto do ideário marxista nos estudos das ciências humanas e sociais em geral – história, sociologia, economia – o método denominado “materialista histórico dialético” tem sido nas últimas décadas, pouco trabalhado e portanto pouco estudado e compreendido pela comunidade acadêmica  corrente e, o que é mais preocupante, quase ausente na formação dos novos pesquisadores das ciências sociais. O entendimento e a análise de tal fenômeno estabelece relação direta com a atual conjuntura de intensificação das lutas de classe, levando-se em conta os projetos em disputa quanto à direção do modo de produção da existência e o evidente processo de evidente hegemonia do capital.
Na medida em que a efetiva apropriação de um ideário se dá através de estudo sistematizado e consistente, a limitação imposta aos estudos envolvendo o ideário do materialismo histórico acaba gerando interpretações distorcidas além de percepções superficiais e até contraditórias, pouco contribuindo para a ampliação e atualização do legado marxista. Percebemos também que, nos dias de hoje, esse limitado interesse pelo legado marxista se apoia numa lógica hegemônica de construção do conhecimento científico, no âmbito de uma batalha das ideias, onde se posicionam grupos que tendem a desvalorizar o “pensar historicamente” e principalmente a desqualificar o papel do estudo, da compreensão e do domínio do processo de encaminhamento das abordagens teórico-metodológicas desenvolvidas pelos homens em relação às possibilidades de entendimento da sua própria existência humana. Contrariamente, defendemos a posição de colocar em foco uma lógica oposta, que legitima a valorização de um conhecimento teórico-metodológico e o resgate da dimensão histórica dos fenômenos sociais, e que pode, a despeito do que é divulgado, colocar os pesquisadores em formação diante de outras possibilidades de olhares e de entendimentos de suas próprias existências; estamos falando de ganhos gerados a partir do fomento de discussões e de trocas teoricamente estruturadas e da construção de posições autônomas e críticas, ou seja, estudos e vivências passíveis de gerar a construção de novos conhecimentos científicos, criativos e fundamentalmente consistentes, porque apoiados numa abordagem teórico-metodológico definida.
Daí que, se para uma determinada lógica de pensamento corrente, o estudo e a compreensão do método do materialismo histórico corre o risco de ser uma mera excentricidade, para os pesquisadores que entram em contato com esse conhecimento, a despeito de se assumirem ou não como materialistas históricos, surgem novas possibilidades de olhares e de apreensão crítica da realidade. Através do método marxista estamos em contato com o processo de construção de uma teoria científica, inovadora para sua época, que rompe com o ideário positivista de ciência quando assume como objetivo não somente fornecer um conhecimento concreto sobre a realidade, mas fundamentalmente fornecer os meios (instrumento de trabalho intelectual) que nos permitam alcançar um conhecimento científico dos objetos concretos que constituem a realidade. O estudo e a compreensão do método marxista envolve um exercício intelectual, ao mesmo tempo, dinâmico e estruturante, sobre a própria construção do conhecimento científico, prática que se faz necessária na formação de pesquisadores das ciências sociais em geral, o que inclui os pesquisadores que atuam no campo da educação, seja através da docência, tendo em vista a formação de novos professores e pesquisadores, seja através da prática da pesquisa voltada á educação, desenvolvendo conhecimento científico não só novo e crítico, como teoricamente consistente, questão que tem sido pouco discutida no âmbito das pesquisas educacionais.
Das questões acima surge o desafio do presente trabalho[2]: iniciar e disponibilizar (principalmente para pesquisadores em formação) uma reflexão sobre o método que Marx desenvolve para sua teoria do materialismo histórico dialético (e que nos exige inclusive a compreensão de outras abordagens teóricas). Nessa reflexão, o método do materialismo histórico será explicitado a partir de alguns pressupostos filosóficos assumidos por Marx, que direcionam sua concepção metodológica, e por uma abordagem explicativa do método que Marx concebe para apreender a realidade concreta (método e instrumental utilizado). Ao longo do texto serão trabalhados exemplos apresentados por Marx, representativos do funcionamento dessa metodologia que inova ao dinamizar a apreensão da realidade concreta entendendo-a enquanto unidade de múltiplas determinações.
Sobre os pressupostos filosóficos

Entender o materialismo histórico pressupõe entender como Marx apreende a realidade concreta. Dar conta de como isso se processa envolve a análise de duas questões: uma questão relacionada com a natureza social e histórica do movimento social e uma outra relacionada com o objetivo atribuído à apreensão da realidade concreta. Para Marx, a realidade concreta ou o movimento social só poderia ser percebido e explicado a partir de um processo histórico. Inserido nesse movimento social, o homem e a sua natureza humana não são percebidos por Marx como fenômenos naturais, mas sim como fenômenos dinâmicos, social e historicamente produzidos.
Cabe também destacar o objetivo dessa apreensão da realidade concreta: identificar leis que governam o funcionamento da realidade concreta. Note-se que não se trata de identificar dados e fatos da realidade, mas de se identificar leis que, por governarem essa realidade, fazem parte dela. E por fazerem parte da realidade, essas leis apresentam um funcionamento que independe da vontade da consciência e das intenções dos seres humanos. Através dessa constatação, Marx assume que o ponto de partida para a apreensão da realidade seja o lugar no qual essas leis se situam, ou seja, que esse ponto de partida seja a própria realidade concreta (análise do materialismo histórico). Impactante e inovador, esse posicionamento gerou controvérsias por se contrapor á filosofia alemã da época, que defendia que o ponto de partida para apreensão da realidade se situava no plano das idéias, no plano do pensamento (análise metafísica da realidade).
A produção de idéias, de representações, da cosnciência, está, de início, diretamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. (...) Os homens são os produtores de suas representações, de suas ideias etc, mas os homens reais e ativos, tal como se acham condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e pelo intercâmbio que a ele corresponde até chegar ás suas formações mais amplas. A consciência jamais pode ser outra coisa do que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real. (...)
Totalmente ao contrário do que ocorre na filosofia alemã, que desce do céu á terra, aqui se ascende da terra ao céu. Ou, em outras palavras: não se parte daquilo que os homens dizem, imaginam ou representam, e tampouco dos homens pensados, imaginados e representados para, a partir daí, chegar aos homens em carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos e, a partir de seu processo de vida real, expõe-se também o desenvolvimento dos reflexos ideológicos e dos ecos desse processo de vida. (...) Não é a consciência que determina a vida mas a vida que determina a consciência. (Marx & Engels,1986; p. 36,37; grifos meus)

Marx está nos apontando a existência de uma realidade objetiva, ou seja, uma realidade que existe independentemente das ideias e do pensamento, e nesse sentido, o conceito de reflexo, não é toda a realidade, mas apenas a apreensão subjetiva da realidade objetiva. O reflexo implica a subjetividade, própria do pensamento humano (Frigotto, 2001) e enquanto uma apreensão subjetiva, esse reflexo é parcial, ou seja, o reflexo não dá conta da totalidade da realidade objetiva, seu maior desafio é trazer, para o plano do conhecimento, a dialética - contradições, conflitos, transformações - que se situa no plano da realidade.
Partindo dessa abordagem inicial, a análise de alguns conceitos que compõem a teoria do materialismo histórico se apoiará numa reflexão que levará em conta questões pedagógicas e conceituais sobre o texto, “Introdução á Crítica da Economia Política”, escrito em 1857, com ênfase na parte 3 - O método da Economia Política.
Sobre “O Método da Economia Política”
Trabalhar analiticamente “O Método” é uma aventura intelectual desafiadora que implica num exercício singular, envolvendo o entendimento não só das idéias e conceitos nele apresentados, como do tipo e da maneira como Marx utiliza a linguagem, retirando dela recursos não usuais. Começando por situar as condições nas quais esse trabalho foi produzido, vale assinalar que Marx escreveu a “Introdução á Crítica da Economia Política. O fato é que Marx não havia preparado esse texto para uma publicação, o que em parte, justifica seu tamanho (trata-se de um texto curto de apenas sete paginas) e o não investimento em explicações detalhadas sobre os inúmeros conceitos apresentados. Soma-se a isso, serem as explicações conceituais geralmente, desenvolvidas a partir de exemplos - o que, além de não necessariamente dar conta da complexidade do tema, confirma o caráter sintético da obra.
O conjunto dessas questões pode ser melhor explicitados através da reflexão desenvolvida por Marilena Chauí sobre o trabalho intelectual.
... Normalmente se imagina que a crítica permite opor um pensamento verdadeiro a um pensamento falso. Na verdade, a crítica não é isso. Não é o conjunto de conteúdos verdadeiros que se oporia a um conjunto de conteúdos falsos. A crítica é um trabalho intelectual. Com a finalidade de explicitar o conteúdo de um pensamento qualquer, de um discurso qualquer, para encontrar o que está sendo silenciado por esse pensamento ou por esse discurso. O que interessa para a crítica não é o que está sendo explicitamente pensado, explicitamente dito, mas exatamente aquilo que não está sendo dito e que, muitas vezes, nem sequer está sendo pensado de maneira consciente. Ou seja, a tarefa da crítica é fazer falar o silêncio, colocar em movimento um pensamento que possa desvendar todo o silêncio contido em outros pensamentos, em outros discursos. Qual é a finalidade de fazer falar o silêncio, ou tornar explícito o implícito? Essa finalidade é dupla”. ( Chauí, 2000; p.19; grifos meus).

Chauí nos explica que a primeira finalidade se dá quando, ao fazer aparecer tudo aquilo que estava em silêncio, o pensamento ou o discurso que estou examinando se revela insustentável, começa a se desmanchar,“... se destruir à medida que vou explicitando tudo o que nele havia, mas que ele não dizia, então a crítica encontrou algo muito preciso, encontrou a IDEOLOGIA. A ideologia é exatamente aquele tipo de discurso, aquele tipo de pensamento que contém um silêncio que, se for dito, destrói a coerência, a lógica da ideologia.” (Chauí, 2000; p.19). E quando explica a segunda finalidade, Chauí nos aponta que, ao desvelar o que estava em silêncio, podemos nos deparar com um pensamento ainda mais rico do que haviam imaginado, “ainda mais importante do que havíamos imaginado, capaz de nos dar pistas para pensar, caminhos novos, justamente porque pudemos perceber muito mais do que o que parecia à primeira vista estar contido nele. (...) A crítica não é, portanto um conjunto de conteúdos verdadeiros, mas uma forma de trabalhar. A forma de um trabalho intelectual, que é o trabalho filosófico por excelência. (Chauí, 2000; p.20; grifos meus)
Nada mais adequado e preciso do que essa colocação de Chauí para expressar o impacto da leitura do método. Ao “desvendar os silêncios” desse texto, nos deparamos com a construção de uma teoria que tem por objetivo a própria construção de conhecimento sobre a realidade concreta, sobre o mundo real, sobre o movimento social dos seres humanos. O estudo do Método é, em si mesmo, uma prática significativamente pedagógica; seu estudo e análise nos possibilitam construir o aprendizado de uma determinada forma de trabalho, o trabalho intelectual crítico. Vale assinalar que Chauí está se referindo à análise de um pensamento em geral, esteja ele materializado num discurso ou num texto.
Um outro olhar a ser levado em conta para se entender as dificuldades analíticas do Método é o fato de que Marx fazia uma clara distinção formal entre o que é o método de exposição e o método de pesquisa.

(...) A investigação tem de se apoderar da matéria, em seus pormenores, de analisar suas diferentes formas de desenvolvimento, e de permitir a conexão íntima que há entre elas. Só depois de concluído esse trabalho, é que se pode descrever, adequadamente, o movimento real. Se isto se consegue, ficará espelhada no plano ideal, a vida da realidade pesquisada, o que pode dar a impressão de uma construção a priori. (Marx,1994; p.16;grifos meus)

Nesse sentido, o texto do Método não se constitui numa descrição adequada do movimento real; ele não descreve o método de exposição, mas sim o processo através do qual o pesquisador se apossa da realidade material, ou seja, o texto do Método descreve o método de investigação.
E após essas colocações, nada melhor do que o efetivo contato com a materialidade desse texto. Como o próprio título indica, Marx está registrando o método da economia política, ou seja, um método que se manifesta nessa economia. Para explicar como esse método da economia política opera, Marx vai estruturar o texto nas três dimensões que fundamentam o seu processo de apreensão e investigação da realidade: a) uma determinada relação sujeito - objeto - conceito, através da qual Marx explicita de que maneira se dá o processo de apreensão do mundo real. Nessa explicação evidencia-se o pressuposto filosófico materialista, já trabalhado anteriormente, que se apoia na existência de uma realidade objetiva que existe independentemente das ideias e do pensamento humano.  No texto do Método, Marx parte de um exemplo - “Quando estudamos um dado país do ponto de vista da Economia Política, começamos pela população...”, donde conclui que “parece que o correto é começar pelo real e pelo concreto (...) assim a economia começaria pela população que é a base e o sujeito do ato social de produção como um todo” (grifos meus), para logo após afirmar tratar-se de um procedimento falso. O que exatamente Marx está denunciando como falso? O falso não se refere á afirmação de que o correto é começar pelo real e pelo concreto – essa colocação Marx continua defendendo, pontuando inclusive que a garantia de objetividade é fundar-se no real. Vale assinalar que, como confirmaremos adiante, para Marx, o real e o concreto são instâncias distintas do mundo real – o real é o mundo real e o concreto é um dos estágios da realidade pensada. Daí que, em seu entendimento, é falso assumir que “população” seja um conceito representativo do mundo real, na medida em que “população” é um conceito concreto, ou seja, uma expressão da realidade pensada. O que comprova isso é o fato de que quando falamos de população temos de especificar do que estamos falando. Marx afirma que
A população é uma abstração, se desprezarmos, por exemplo, as classes que a compõem. Por seu lado, estas classes são uma palavra vazia de sentido se ignorarmos os elementos em que repousam, por exemplo: o trabalho assalariado, o capital, etc. (...) Assim, se começássemos pela população, teríamos uma representação caótica do todo, e através de uma determinação mais precisa, através de uma análise,  chegaríamos a conceitos cada vez mais simples; do concreto idealizado passaríamos a abstrações cada vez mais tênues até atingirmos determinações as mais simples.  (Marx, 1978; p.116)

O movimento que se expressa nesse raciocínio parte do princípio de que tudo o que existe na realidade é passível de ser representado pelo pensamento humano. Só que, por melhor que seja essa representação mental, ela não é a realidade propriamente dita. Para Marx, o mundo real é a realidade em toda a sua riqueza e totalidade e o mundo real construído mentalmente vai se tornando concreto para nós. Essa representação mental concreta do mundo real, expressa num primeiro momento, a representação caótica de um todo. Para que essa representação deixe de ser caótica faz-se necessário a busca de determinações mais precisas, o que só é conseguido através de análises – o que iria nos propiciar chegar a conceitos mais simples, mais próximos do mundo real e portanto mais afastado da realidade pensada. Para Marx, o concreto (realidade pensada) só ganha sentido através de sucessivas análises que nos propiciam descobrir as suas várias determinações mais simples, deve-se fazer caminho de volta até o conceito inicial de população, cujo sentido não mais seria a representação caótica do todo, “porém uma rica totalidade de determinações e relações diversas”. Nesse movimento, encontram-se as etapas e os procedimentos que caracterizam o que ele, Marx, denominava de método cientificamente exato. Até aqui, segundo Marx, podemos assumir que:
·         existe uma realidade objetiva que independe das ideias que os homens constroem sobre ela - trabalhada pela abordagem materialista;
·         a existência dessas das realidades independentes – mundo real e realidade pensada – nos confunde na nossa apreensão e entendimento do mundo real; mas na medida em que tudo que apreendemos, o fazemos pelo pensamento, faz-se necessário o estabelecimento de uma estratégia que nos permita trabalhar essa diferenciação – até para que possamos ampliar nosso conhecimento de mundo real;
·         para que possamos apreender esse mundo real, devemos submeter a realidade pensada a um rigoroso processo de análise; somente dessa maneira podemos descobrir as determinações;
·         a realidade, o mundo social é determinado; os fenômenos que compõem o mundo social são como são por alguma razão: existem relações específicas entre os fenômenos, os fenômenos respondem a uma causalidade – enfim, a explicação da existência dos fenômenos só é conseguida quando conseguimos apreender sua determinação;
·         a afirmação “o concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso” nos coloca em contato com o 4° movimento – o retorno ao conceito de população, não mais uma representação caótica mas sim uma síntese construída a partir de todas as determinações identificadas.
A segunda dimensão que fundamenta o método marxista de apreensão do mundo real é a maneira como Marx trabalha com as múltiplas influências e determinações históricas. Dentre as questões apresentadas no texto, destacam-se as análises que Marx desenvolve quanto ao caráter histórico presente no processo de construção das categorias no mundo social. Se para Kant categoria é o conjunto dos conceitos fundamentais do entendimento, no método Marx trabalha o conceito de categoria sem conceituá-lo formalmente, diferenciando-o enquanto categorias simples e categorias mais concretas. Enquanto a categoria simples tem um alto nível de abstração e se caracteriza por certo grau de afastamento da realidade concreta (realidade pensada), a categoria mais concreta se diferencia, exatamente por se colocar mais próxima da realidade concreta (realidade pensada). Valor de troca e posse são exemplos de categoria simples, que se situam próximas do mundo real e distanciadas da realidade pensada. Família, comunidade, Estado são exemplos de categorias mais concretas e próximas da realidade pensada.
Ao analisar historicamente o encaminhamento e desenvolvimento dos fenômenos sociais, Marx conclui que “o curso do pensamento abstrato que se eleva do mais simples ao complexo corresponde ao processo histórico efetivo” (Marx, 1978; p. 118). A complexidade que se coloca nessa percepção é a seguinte: o fato do dinheiro (categoria simples), historicamente existir antes do capital (categoria mais concreta), não impede que o dinheiro possa exprimir relações dominantes num período menos desenvolvido que só serão plenamente realizadas com a existência do capital. Ou seja, o foco dessa análise é que, no bojo de um processo histórico em curso, os fenômenos do mundo social não estão aleatoriamente soltos – essa dimensão histórica fornece uma articulação tanto da totalidade com a singularidade, quanto do singular com o todo. Uma totalidade que funciona dialeticamente na medida em que, se por um lado se mostra inesgotável e, portanto difícil de ser apreendida, por outro, se deixa entrever nas suas múltiplas e diferentes partes. Marx assinala que “... até as categorias mais abstratas – precisamente por causa de sua natureza abstrata – apesar de sua validade para todas as épocas, são contudo, na determinidade desta abstração, igualmente produto de condições históricas, e não possuem plena validez senão para estas condições e dentro dos limites destas. (Marx, 1978; p.120)
Nessas análises, Marx não só analisa como se processa historicamente a reprodução mental do concreto real como também acaba nos mostrando como toda a categoria pensada possui uma referência a uma relação real.
A última dimensão trabalhada no Método diz respeito à maneira como se dão os processos de transformação presentes nos fenômenos do mundo real. Partindo da afirmação de que “a anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco”, Marx vai nos alertando para o fato de que:
O chamado desenvolvimento histórico repousa em geral sobre o fato de a última forma considerar as formas passadas como etapas que levam a seu próprio grau de desenvolvimento, e dado que ela raramente é capaz de fazer a sua própria crítica, e isso em condições bem determinadas – concebe-se sempre sob um aspecto unilateral. (Marx, 1978, p.120)

Ao denunciar as dificuldades existentes em sociedades que não desenvolvem suas próprias compreensões críticas, Marx coloca em evidência a importância de se perceber as articulações orgânicas explicativas do mundo real; “só quando não eterniza suas próprias relações é que uma sociedade inicia sua compreensão crítica”. (Marx,1978) Ao analisar essa questão, Marx nos traz o exemplo dos povos pastores.
Neles existe certa forma esporádica de lavoura. A propriedade de terra encontra-se determinada por ela. Esta propriedade é comum e conserva mais ou menos esta forma, conforme aqueles povos se aferrem mais ou menos a suas tradições; por exemplo, a propriedade comunal dos eslavos. Onde predomina a agricultura, praticada por povos estabelecidos – e isto já constitui um grande progresso - como na sociedade antiga e feudal, mesmo a indústria, com sua organização e formas da propriedade que lhe correspondem, tem em maior ou menor medida um caráter específico de propriedade rural.  A [sociedade] ou bem está marcada inteiramente por este caráter, como entre os antigos romanos, ou a organização da cidade imita, como na Idade Média, a organização do campo (...). (Marx,1978; p. 121; grifos meus)

O registro de que, em regiões onde predomina a agricultura, a atividade industrial, a despeito de pressupor uma organização própria, acabe assumindo um caráter de propriedade rural, expressa a clareza de uma determinação orgânica do fenômeno econômico dominante.
Ao finalizar o texto, Marx nos aponta os pontos de partida para uma apreensão científica do movimento social: 1) as determinações abstratas gerais, e 2) as categorias que constituem a articulação interna da sociedade burguesa e sobre as quais assentam as classes fundamentais (Marx, 1978).
           E ao finalizar esse trabalho fica a sensação de uma construção intelectual em processo; em total sintonia com o movimento intelectual explicitado e praticado por Marx, a apropriação do método materialista histórico se dá por aproximações sucessivas. O passo seguinte é retomar o ponto de partida (a um ponto de partida analisado e portanto rico em determinações) verificando lacunas de pensamentos e confirmando entendimentos, num processo dinâmico de construção de conhecimento.
Vale assinalar que as colocações desenvolvidas nesse texto tem por objetivo subsidiar um trabalho no âmbito da formação de professores da educação básica em atuação na Baixada Fluminense com ênfase no entendimento das politicas publicas de educação em curso no Brasil a partir do advento do estado neoliberal.

Referências Bibliográficas
CARDOSO, Miriam Limoeiro (1990). Para uma leitura do Método em Karl Marx -anotações sobre a “Introdução” de 1857, Niterói, UFF, Cadernos do ICHF- Instituto de Ciências Humanas e Filosofia.
CHAUÍ, Marilena (2000). In: Hühne, Leda M. (org.). Metodologia Científica, RJ, Agir.
FAZENDA, Ivani (org.) (2001). Metodologia da Pesquisa Educacional. São Paulo, Cortez.
KONDER, Leandro (1994). O que é Dialética? São Paulo, Ed. Brasiliense.
MARX,K. (1978). Marx - Coleção Os Pensadores. São Paulo, Ed. Abril Cultural.
----------- (1994). O Capital. Crítica à Economia Política. Rio de Janeiro, Ed. Bertrand Brasil S.A.
MARX, K; ENGELS, F. (1986). A ideologia Alemã. São Paulo, Hucitec.




[1] A reflexão apresentada neste trabalho resulta do esforço e do aprofundamento teórico que vem sendo desenvolvido pelo Grupo de Estudo de Teorias Críticas existente na Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, FEBF, coordenado pela Profa. Maria Teresa Cavalcanti, com a destacada participação dos seguintes alunos do Curso de Pedagogia: Carlinda Soares, Cerlândia Aguiar, Cristiane Domingues, Natanael Firmino e Tamaralice de Souza. 
[2] O desafio aqui proposto seria descrito de maneira incompleta sem o registro da gênese dessas preocupações relacionadas com o fundamental papel das apropriações teórico-metodológicas na formação do pesquisador. Tal inquietação resultou da nossa participação num grupo de discussão sobre “Marx, Freud e a história” coordenado pela professora Virgínia Fontes; além do conteúdo específico das teorias abordadas, foram intensamente vivenciadas pelo grupo a prática da argumentação e o embate de opiniões. Conteúdos e metodologias de disponibilização e apropriação eram constantemente articulados, sem perda de consistência e profundidade das colocações.