Titulo: TEORIA E MÉTODO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES: CONTRIBUIÇÕES
SOBRE O MÉTODO “MATERIALISTA HISTÓRICO DIALÉTICO”
Maria Teresa Cavalcanti
de Oliveira[1]
Doutora
em Educação pela Pontifícia Universidade Católica, PUC-Rio, RJ
Professora
Adjunta da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense - FEBF / Universidade do
Estado do Rio de Janeiro – UERJ / Brasil
email:
teresacavalcanti@gmail.com
Resumo
O
presente trabalho tem como objeto de estudo explicitar as possibilidades de
potencialização da construção do conhecimento científico através do uso do
método marxista “materialismo histórico dialético”. Em se tratando da atual
conjuntura de sociedade, marcada pela hegemonia do ideário capitalista que convive com a batalha ideológica
materializada na co-existência de projetos díspares, que entendem de maneira
diferenciada o sentido da produção da existência e da vida humana, entendemos
ter elevada relevância a presença do método materialismo histórico dialético na
formação dos cientistas sociais e fundamentalmente na formação dos professores
entendidos como intelectuais orgânicos na difusão efetiva das possibilidades
contra-hegemônicas.
Introduzindo
o tema
No
posfácio da 2° edição de sua obra mais conhecida - O Capital, Crítica à
Economia Política - Marx faz um registro através do qual destaca, a partir de
diversas críticas feitas ao seu trabalho, o não entendimento do método por ele
desenvolvido e praticado nessa obra
O método
empregado nesta obra, conforme demonstram as interpretações contraditórias, não
foi bem compreendido. Assim, a Revue Positiviste de Paris increpa-me que trato
a economia metafisicamente e, ao mesmo tempo - adivinhem, - que me limito a
análise crítica de uma situação dada, ao invés de prescrever fórmulas
(comtistas?) de utilidade para o futuro. Prof. Sieber contraria os que me
argúem de metafísico, ao observar: “do ponto de vista da teoria propriamente
dita, o método utilizado por Marx é o dedutivo de toda escola inglesa e os
defeitos e as virtudes dessa escola são comuns aos melhores economistas
teóricos”. (Marx, 1994;p.13)
Datada
de Janeiro de 1873, a constatação formulada por Marx, da não compreensão de seu
método, mantém, nos dias de hoje, por diferentes motivos, significativa
atualidade. Em pleno século XXI, tanto tempo após a concepção da teoria do
materialismo histórico e a despeito do efetivo e inegável impacto do ideário
marxista nos estudos das ciências humanas e sociais em geral – história, sociologia,
economia – o método denominado “materialista histórico dialético” tem sido nas
últimas décadas, pouco trabalhado e portanto pouco estudado e compreendido pela
comunidade acadêmica corrente e, o que é
mais preocupante, quase ausente na formação dos novos pesquisadores das
ciências sociais. O entendimento e a análise de tal fenômeno estabelece relação
direta com a atual conjuntura de intensificação das lutas de classe, levando-se
em conta os projetos em disputa quanto à direção do modo de produção da existência
e o evidente processo de evidente hegemonia do capital.
Na
medida em que a efetiva apropriação de um ideário se dá através de estudo
sistematizado e consistente, a limitação imposta aos estudos envolvendo o ideário
do materialismo histórico acaba gerando interpretações distorcidas além de percepções
superficiais e até contraditórias, pouco contribuindo para a ampliação e
atualização do legado marxista. Percebemos também que, nos dias de hoje, esse
limitado interesse pelo legado marxista se apoia numa lógica hegemônica de
construção do conhecimento científico, no âmbito de uma batalha das ideias,
onde se posicionam grupos que tendem a desvalorizar o “pensar historicamente” e
principalmente a desqualificar o papel do estudo, da compreensão e do domínio do
processo de encaminhamento das abordagens teórico-metodológicas desenvolvidas
pelos homens em relação às possibilidades de entendimento da sua própria
existência humana. Contrariamente, defendemos a posição de colocar em foco uma
lógica oposta, que legitima a valorização de um conhecimento
teórico-metodológico e o resgate da dimensão histórica dos fenômenos sociais, e
que pode, a despeito do que é divulgado, colocar os pesquisadores em formação diante
de outras possibilidades de olhares e de entendimentos de suas próprias
existências; estamos falando de ganhos gerados a partir do fomento de
discussões e de trocas teoricamente estruturadas e da construção de posições
autônomas e críticas, ou seja, estudos e vivências passíveis de gerar a construção
de novos conhecimentos científicos, criativos e fundamentalmente consistentes,
porque apoiados numa abordagem teórico-metodológico definida.
Daí
que, se para uma determinada lógica de pensamento corrente, o estudo e a compreensão
do método do materialismo histórico corre o risco de ser uma mera
excentricidade, para os pesquisadores que entram em contato com esse
conhecimento, a despeito de se assumirem ou não como materialistas históricos,
surgem novas possibilidades de olhares e de apreensão crítica da realidade.
Através do método marxista estamos em contato com o processo de construção de
uma teoria científica, inovadora para sua época, que rompe com o ideário
positivista de ciência quando assume como objetivo não somente fornecer um
conhecimento concreto sobre a realidade, mas fundamentalmente fornecer os meios (instrumento de trabalho
intelectual) que nos permitam alcançar um conhecimento científico dos objetos
concretos que constituem a realidade. O estudo e a compreensão do método
marxista envolve um exercício intelectual, ao mesmo tempo, dinâmico e
estruturante, sobre a própria construção do conhecimento científico, prática
que se faz necessária na formação de pesquisadores das ciências sociais em
geral, o que inclui os pesquisadores que atuam no campo da educação, seja
através da docência, tendo em vista a formação de novos professores e
pesquisadores, seja através da prática da pesquisa voltada á educação,
desenvolvendo conhecimento científico não só novo e crítico, como teoricamente
consistente, questão que tem sido pouco discutida no âmbito das pesquisas
educacionais.
Das
questões acima surge o desafio do presente trabalho[2]:
iniciar e disponibilizar (principalmente para pesquisadores em formação) uma
reflexão sobre o método que Marx desenvolve para sua teoria do materialismo
histórico dialético (e que nos exige inclusive a compreensão de outras
abordagens teóricas). Nessa reflexão, o método do materialismo histórico será
explicitado a partir de alguns pressupostos filosóficos assumidos por Marx, que
direcionam sua concepção metodológica, e por uma abordagem explicativa do
método que Marx concebe para apreender a realidade concreta (método e
instrumental utilizado). Ao longo do texto serão trabalhados exemplos
apresentados por Marx, representativos do funcionamento dessa metodologia que
inova ao dinamizar a apreensão da realidade concreta entendendo-a enquanto unidade de múltiplas determinações.
Sobre os pressupostos
filosóficos
Entender
o materialismo histórico pressupõe entender como Marx apreende a realidade concreta. Dar conta de como isso se
processa envolve a análise de duas questões: uma questão relacionada com a
natureza social e histórica do movimento social e uma outra relacionada com o
objetivo atribuído à apreensão da realidade concreta. Para Marx, a realidade
concreta ou o movimento social só poderia ser percebido e explicado a partir de
um processo histórico. Inserido nesse movimento social, o homem e a sua
natureza humana não são percebidos por Marx como fenômenos naturais, mas sim
como fenômenos dinâmicos, social e historicamente produzidos.
Cabe
também destacar o objetivo dessa apreensão da realidade concreta: identificar
leis que governam o funcionamento da realidade concreta. Note-se que não se
trata de identificar dados e fatos da realidade, mas de se identificar leis
que, por governarem essa realidade, fazem parte dela. E por fazerem parte da
realidade, essas leis apresentam um funcionamento que independe da vontade da
consciência e das intenções dos seres humanos. Através dessa constatação, Marx
assume que o ponto de partida para a apreensão da realidade seja o lugar no
qual essas leis se situam, ou seja, que esse ponto de partida seja a própria
realidade concreta (análise do materialismo histórico). Impactante e inovador,
esse posicionamento gerou controvérsias por se contrapor á filosofia alemã da
época, que defendia que o ponto de partida para apreensão da realidade se
situava no plano das idéias, no plano do pensamento (análise metafísica da
realidade).
A produção de
idéias, de representações, da cosnciência, está, de início, diretamente
entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens,
como a linguagem da vida real. (...) Os homens são os produtores de suas
representações, de suas ideias etc, mas os homens reais e ativos, tal como se
acham condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças
produtivas e pelo intercâmbio que a ele corresponde até chegar ás suas
formações mais amplas. A consciência jamais pode ser outra coisa do que o ser
consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real. (...)
Totalmente ao
contrário do que ocorre na filosofia alemã, que desce do céu á terra, aqui se
ascende da terra ao céu. Ou, em outras palavras: não se parte daquilo que os
homens dizem, imaginam ou representam, e tampouco dos homens pensados,
imaginados e representados para, a partir daí, chegar aos homens em carne e
osso; parte-se dos homens realmente ativos e, a partir de seu processo de vida
real, expõe-se também o desenvolvimento dos reflexos ideológicos e dos ecos
desse processo de vida. (...) Não é a
consciência que determina a vida mas a vida que determina a consciência. (Marx
& Engels,1986; p. 36,37; grifos meus)
Marx
está nos apontando a existência de uma realidade objetiva, ou seja, uma
realidade que existe independentemente das ideias e do pensamento, e nesse
sentido, o conceito de reflexo, não
é toda a realidade, mas apenas a apreensão subjetiva da realidade objetiva. O
reflexo implica a subjetividade, própria do pensamento humano (Frigotto, 2001) e enquanto uma
apreensão subjetiva, esse reflexo é parcial, ou seja, o reflexo não dá conta da
totalidade da realidade objetiva, seu maior desafio é trazer, para o plano do
conhecimento, a dialética - contradições, conflitos, transformações - que se
situa no plano da realidade.
Partindo
dessa abordagem inicial, a análise de alguns conceitos que compõem a teoria do
materialismo histórico se apoiará numa reflexão que levará em conta questões
pedagógicas e conceituais sobre o texto, “Introdução á Crítica da Economia
Política”, escrito em 1857, com ênfase na parte 3 - O método da Economia
Política.
Sobre
“O Método da Economia Política”
Trabalhar
analiticamente “O Método” é uma aventura intelectual desafiadora que implica num
exercício singular, envolvendo o entendimento não só das idéias e conceitos
nele apresentados, como do tipo e da maneira como Marx utiliza a linguagem,
retirando dela recursos não usuais. Começando por situar as condições nas quais
esse trabalho foi produzido, vale assinalar que Marx escreveu a “Introdução á
Crítica da Economia Política. O fato é que Marx não havia preparado esse texto
para uma publicação, o que em parte, justifica seu tamanho (trata-se de um
texto curto de apenas sete paginas) e o não investimento em explicações
detalhadas sobre os inúmeros conceitos apresentados. Soma-se a isso, serem as
explicações conceituais geralmente, desenvolvidas a partir de exemplos - o que,
além de não necessariamente dar conta da complexidade do tema, confirma o
caráter sintético da obra.
O
conjunto dessas questões pode ser melhor explicitados através da reflexão
desenvolvida por Marilena Chauí sobre o trabalho intelectual.
... Normalmente
se imagina que a crítica permite opor um pensamento verdadeiro a um pensamento
falso. Na verdade, a crítica não é isso. Não é o conjunto de conteúdos
verdadeiros que se oporia a um conjunto de conteúdos falsos. A crítica é um trabalho intelectual. Com a
finalidade de explicitar o conteúdo de um pensamento qualquer, de um discurso
qualquer, para encontrar o que está sendo silenciado por esse pensamento ou por
esse discurso. O que interessa para a crítica não é o que está sendo
explicitamente pensado, explicitamente dito, mas exatamente aquilo que não está
sendo dito e que, muitas vezes, nem sequer está sendo pensado de maneira
consciente. Ou seja, a tarefa da crítica
é fazer falar o silêncio, colocar em movimento um pensamento que possa
desvendar todo o silêncio contido em
outros pensamentos, em outros discursos. Qual é a finalidade de fazer falar
o silêncio, ou tornar explícito o implícito? Essa finalidade é dupla”. ( Chauí,
2000; p.19; grifos meus).
Chauí nos explica que a
primeira finalidade se dá quando, ao fazer aparecer tudo aquilo que estava em
silêncio, o pensamento ou o discurso que estou examinando se revela
insustentável, começa a se desmanchar,“... se destruir à medida que vou
explicitando tudo o que nele havia, mas que ele não dizia, então a crítica
encontrou algo muito preciso, encontrou a IDEOLOGIA. A ideologia é exatamente
aquele tipo de discurso, aquele tipo de pensamento que contém um silêncio que,
se for dito, destrói a coerência, a lógica da ideologia.” (Chauí, 2000; p.19). E
quando explica a segunda finalidade, Chauí nos aponta que, ao desvelar o que
estava em silêncio, podemos nos deparar com um pensamento ainda mais rico do
que haviam imaginado, “ainda mais
importante do que havíamos imaginado, capaz de nos dar pistas para pensar,
caminhos novos, justamente porque pudemos perceber muito mais do que o que
parecia à primeira vista estar contido nele. (...) A crítica não é, portanto um
conjunto de conteúdos verdadeiros, mas uma forma de trabalhar. A forma de um
trabalho intelectual, que é o trabalho filosófico por excelência. (Chauí, 2000;
p.20; grifos meus)
Nada mais adequado e
preciso do que essa colocação de Chauí para expressar o impacto da leitura do
método. Ao “desvendar os silêncios” desse texto, nos deparamos com a construção
de uma teoria que tem por objetivo a própria construção de conhecimento sobre a
realidade concreta, sobre o mundo real, sobre o movimento social dos seres
humanos. O estudo do Método é, em si mesmo, uma prática significativamente
pedagógica; seu estudo e análise nos possibilitam construir o aprendizado de
uma determinada forma de trabalho, o trabalho intelectual crítico. Vale
assinalar que Chauí está se referindo à análise de um pensamento em geral,
esteja ele materializado num discurso ou num texto.
Um outro olhar a ser
levado em conta para se entender as dificuldades analíticas do Método é o fato
de que Marx fazia uma clara distinção formal entre o que é o método de
exposição e o método de pesquisa.
(...) A investigação tem de se apoderar da
matéria, em seus pormenores, de analisar suas diferentes formas de
desenvolvimento, e de permitir a conexão íntima que há entre elas. Só depois de
concluído esse trabalho, é que se pode descrever, adequadamente, o movimento
real. Se isto se consegue, ficará espelhada
no plano ideal, a vida da realidade pesquisada, o que pode dar a impressão
de uma construção a priori. (Marx,1994; p.16;grifos meus)
Nesse
sentido,
o texto do Método não se constitui numa descrição adequada do movimento real;
ele não descreve o método de exposição, mas sim o processo através do qual o
pesquisador se apossa da realidade material, ou seja, o texto do Método
descreve o método de investigação.
E após essas
colocações, nada melhor do que o efetivo contato com a materialidade desse
texto. Como o próprio título indica, Marx está registrando o método da economia
política, ou seja, um método que se manifesta nessa economia. Para explicar
como esse método da economia política opera, Marx vai estruturar o texto nas
três dimensões que fundamentam o seu processo de apreensão e investigação da
realidade: a) uma determinada relação sujeito - objeto - conceito, através da
qual Marx explicita de que maneira se dá o processo de apreensão do mundo real.
Nessa explicação evidencia-se o pressuposto filosófico materialista, já
trabalhado anteriormente, que se apoia na existência de uma realidade objetiva
que existe independentemente das ideias e do pensamento humano. No texto do Método, Marx parte de
um exemplo - “Quando estudamos um dado país do ponto de vista da Economia
Política, começamos pela população...”, donde conclui que “parece que o correto é começar pelo real e pelo concreto (...)
assim a economia começaria pela população que é a base e o sujeito do ato
social de produção como um todo” (grifos meus), para logo após afirmar
tratar-se de um procedimento falso.
O que exatamente Marx está denunciando como falso? O falso não se refere á
afirmação de que o correto é começar pelo real e pelo concreto – essa colocação
Marx continua defendendo, pontuando inclusive que a garantia de objetividade é
fundar-se no real. Vale assinalar que, como confirmaremos adiante, para Marx, o
real e o concreto são instâncias distintas do mundo real – o real é o mundo
real e o concreto é um dos estágios da realidade pensada. Daí que, em seu
entendimento, é falso assumir que “população” seja um conceito representativo
do mundo real, na medida em que “população” é um conceito concreto, ou seja,
uma expressão da realidade pensada. O que comprova isso é o fato de que quando
falamos de população temos de especificar do que estamos falando. Marx afirma
que
A população é
uma abstração, se desprezarmos, por exemplo, as classes que a compõem. Por seu
lado, estas classes são uma palavra vazia de sentido se ignorarmos os elementos
em que repousam, por exemplo: o trabalho assalariado, o capital, etc. (...)
Assim, se começássemos pela população, teríamos uma representação caótica do todo, e através de uma determinação mais precisa, através de uma análise, chegaríamos a conceitos cada vez mais simples; do concreto idealizado passaríamos a abstrações cada vez mais tênues até atingirmos
determinações as mais simples. (Marx, 1978; p.116)
O movimento que se
expressa nesse raciocínio parte do princípio de que tudo o que existe na
realidade é passível de ser representado pelo pensamento humano. Só que, por
melhor que seja essa representação mental, ela não é a realidade propriamente
dita. Para Marx, o mundo real é a realidade em toda a sua riqueza e totalidade
e o mundo real construído mentalmente vai se tornando concreto para nós. Essa
representação mental concreta do mundo real, expressa num primeiro momento, a
representação caótica de um todo. Para que essa representação deixe de ser
caótica faz-se necessário a busca de determinações mais precisas, o que só é
conseguido através de análises – o que iria nos propiciar chegar a conceitos
mais simples, mais próximos do mundo real e portanto mais afastado da realidade
pensada. Para Marx, o concreto (realidade pensada) só ganha sentido através de
sucessivas análises que nos propiciam descobrir as suas várias determinações
mais simples, deve-se fazer caminho de volta até o conceito inicial de
população, cujo sentido não mais seria a representação caótica do todo, “porém
uma rica totalidade de determinações e relações diversas”. Nesse movimento,
encontram-se as etapas e os procedimentos que caracterizam o que ele, Marx,
denominava de método cientificamente exato. Até aqui, segundo Marx, podemos
assumir que:
·
existe uma realidade objetiva que
independe das ideias que os homens constroem sobre ela - trabalhada pela abordagem
materialista;
·
a existência dessas das realidades
independentes – mundo real e realidade pensada – nos confunde na nossa
apreensão e entendimento do mundo real; mas na medida em que tudo que apreendemos,
o fazemos pelo pensamento, faz-se necessário o estabelecimento de uma estratégia
que nos permita trabalhar essa diferenciação – até para que possamos ampliar
nosso conhecimento de mundo real;
·
para que possamos apreender esse mundo
real, devemos submeter a realidade pensada a um rigoroso processo de análise;
somente dessa maneira podemos descobrir as determinações;
·
a realidade, o mundo social é
determinado; os fenômenos que compõem o mundo social são como são por alguma
razão: existem relações específicas entre os fenômenos, os fenômenos respondem
a uma
causalidade
– enfim, a explicação da existência dos fenômenos só é conseguida quando
conseguimos apreender sua determinação;
·
a afirmação “o concreto é concreto
porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso” nos
coloca em contato com o 4° movimento – o retorno ao conceito de população, não
mais uma representação caótica mas sim uma síntese construída a partir de todas
as determinações identificadas.
A segunda dimensão que
fundamenta o método marxista de apreensão do mundo real é a maneira como Marx
trabalha com as múltiplas influências e determinações históricas. Dentre as
questões apresentadas no texto, destacam-se as análises que Marx desenvolve
quanto ao caráter histórico presente no processo de construção das categorias
no mundo social. Se para Kant categoria é o conjunto dos conceitos fundamentais
do entendimento, no método Marx trabalha o conceito de categoria sem
conceituá-lo formalmente, diferenciando-o enquanto categorias simples e
categorias mais concretas. Enquanto a categoria simples tem um alto nível de
abstração e se caracteriza por certo grau de afastamento da realidade concreta
(realidade pensada), a categoria mais concreta se diferencia, exatamente por se
colocar mais próxima da realidade concreta (realidade pensada). Valor de troca
e posse são exemplos de categoria simples, que se situam próximas do mundo real
e distanciadas da realidade pensada. Família, comunidade, Estado são
exemplos
de categorias mais concretas e próximas da realidade pensada.
Ao analisar
historicamente o encaminhamento e desenvolvimento dos fenômenos sociais, Marx
conclui que “o curso do pensamento abstrato que se eleva do mais simples ao
complexo corresponde ao processo histórico efetivo” (Marx, 1978; p. 118). A
complexidade que se coloca nessa percepção é a seguinte: o fato do dinheiro
(categoria simples), historicamente existir antes do capital (categoria mais
concreta), não impede que o dinheiro possa exprimir relações dominantes num
período menos desenvolvido que só serão plenamente realizadas com a existência
do capital. Ou seja, o foco dessa análise é que, no bojo de um processo
histórico em curso, os fenômenos do mundo social não estão aleatoriamente
soltos – essa dimensão histórica fornece uma articulação tanto da totalidade
com a singularidade, quanto do singular com o todo. Uma totalidade que funciona
dialeticamente na medida em que, se por um lado se mostra inesgotável e,
portanto difícil de ser apreendida, por outro, se deixa entrever nas suas
múltiplas e diferentes partes. Marx assinala que “...
até as categorias mais abstratas – precisamente por causa de sua natureza
abstrata – apesar de sua validade para todas as épocas, são contudo, na
determinidade desta abstração, igualmente produto de condições históricas, e
não possuem plena validez senão para estas condições e dentro dos limites
destas. (Marx, 1978; p.120)
Nessas análises, Marx
não só analisa como se processa historicamente a reprodução mental do concreto
real como também acaba nos mostrando como toda a categoria pensada possui uma
referência a uma relação real.
A última dimensão
trabalhada no Método diz respeito à maneira como se dão os processos de
transformação presentes nos fenômenos do mundo real. Partindo da afirmação de
que “a anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco”, Marx vai nos
alertando para o fato de que:
O chamado
desenvolvimento histórico repousa em geral sobre o fato de a última forma
considerar as formas passadas como etapas que levam a seu próprio grau de
desenvolvimento, e dado que ela raramente é capaz de fazer a sua própria crítica,
e isso em condições bem determinadas – concebe-se sempre sob um aspecto
unilateral. (Marx, 1978, p.120)
Ao denunciar as
dificuldades existentes em sociedades que não desenvolvem suas próprias
compreensões críticas, Marx coloca em evidência a importância de se perceber as
articulações orgânicas explicativas do mundo real; “só quando não eterniza suas
próprias relações é que uma sociedade inicia sua compreensão crítica”.
(Marx,1978) Ao analisar essa questão, Marx nos traz o exemplo dos povos
pastores.
Neles existe
certa forma esporádica de lavoura. A propriedade de terra encontra-se
determinada por ela. Esta propriedade é comum e conserva mais ou menos esta
forma, conforme aqueles povos se aferrem mais ou menos a suas tradições; por
exemplo, a propriedade comunal dos eslavos. Onde predomina a agricultura, praticada por povos estabelecidos – e
isto já constitui um grande progresso - como na sociedade antiga e feudal, mesmo a indústria, com sua organização e
formas da propriedade que lhe correspondem, tem em maior ou menor medida um
caráter específico de propriedade rural.
A [sociedade] ou bem está marcada inteiramente por este caráter,
como entre os antigos romanos, ou a organização da cidade imita, como na Idade
Média, a organização do campo (...). (Marx,1978; p. 121; grifos meus)
O registro de que, em
regiões onde predomina a
agricultura, a atividade industrial, a despeito de pressupor uma organização
própria, acabe assumindo um caráter de propriedade rural, expressa a clareza de
uma determinação orgânica do fenômeno econômico dominante.
Ao finalizar o texto,
Marx nos aponta os pontos de partida para uma apreensão científica do movimento
social: 1) as determinações abstratas gerais, e 2) as categorias que constituem
a articulação interna da sociedade burguesa e sobre as quais assentam as
classes fundamentais (Marx, 1978).
E ao finalizar esse trabalho fica a
sensação de uma construção intelectual em processo; em total sintonia com o
movimento intelectual explicitado e praticado por Marx, a apropriação do método
materialista histórico se dá por aproximações sucessivas. O passo seguinte é
retomar o ponto de partida (a um ponto de partida analisado e portanto rico em
determinações) verificando lacunas de pensamentos e confirmando entendimentos,
num processo dinâmico de construção de conhecimento.
Vale assinalar que as colocações desenvolvidas nesse
texto tem por objetivo subsidiar um trabalho no âmbito da formação de professores
da educação básica em atuação na Baixada Fluminense com ênfase no entendimento
das politicas publicas de educação em curso no Brasil a partir do advento do estado
neoliberal.
Referências
Bibliográficas
CARDOSO,
Miriam Limoeiro (1990). Para uma leitura
do Método em Karl Marx -anotações sobre a “Introdução” de 1857, Niterói, UFF,
Cadernos do ICHF- Instituto de Ciências Humanas e Filosofia.
CHAUÍ,
Marilena (2000). In: Hühne, Leda M. (org.). Metodologia Científica, RJ, Agir.
FAZENDA,
Ivani (org.) (2001). Metodologia da
Pesquisa Educacional. São Paulo, Cortez.
KONDER,
Leandro (1994). O que é Dialética? São
Paulo, Ed. Brasiliense.
MARX,K.
(1978). Marx - Coleção Os Pensadores. São
Paulo, Ed. Abril Cultural.
-----------
(1994). O Capital. Crítica à Economia
Política. Rio de Janeiro, Ed. Bertrand Brasil S.A.
MARX,
K; ENGELS, F. (1986). A ideologia Alemã.
São Paulo, Hucitec.
[1] A reflexão apresentada neste
trabalho resulta do esforço e do aprofundamento teórico que vem sendo
desenvolvido pelo Grupo de Estudo de Teorias Críticas existente na Faculdade de
Educação da Baixada Fluminense, FEBF, coordenado pela Profa. Maria Teresa
Cavalcanti, com a destacada participação dos seguintes alunos do Curso de
Pedagogia: Carlinda Soares, Cerlândia Aguiar, Cristiane Domingues, Natanael
Firmino e Tamaralice de Souza.
[2] O desafio aqui proposto seria
descrito de maneira incompleta sem o registro da gênese dessas preocupações relacionadas
com o fundamental papel das apropriações teórico-metodológicas na formação do
pesquisador. Tal inquietação resultou da nossa participação num grupo de
discussão sobre “Marx, Freud e a história” coordenado pela professora Virgínia
Fontes; além do conteúdo específico das teorias abordadas, foram intensamente
vivenciadas pelo grupo a prática da argumentação e o embate de opiniões. Conteúdos
e metodologias de disponibilização e apropriação eram constantemente
articulados, sem perda de consistência e profundidade das colocações.